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.............Caleidoscópiosófico............. Helena Simões da Costa

- Reflexões, Reflexos, Imagens, Espelhos, ...

sobre mim:
Professora de Filosofia (Ensino Secundário), Artista Plástica. VER MEU PERFIL COMPLETO EM- http://caleidoscopiosofico.blogspot.com/

Helena Simões da Costa


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Posts recentes:
  A preocupação com a felicidade mata a vida? Quem muito procura pouco encontra?
RILKE...
Mais palavras imortais de Tagore...
As Ondas e as Nuvens...
Espelho da Filosofia
A falta de amor que anda pelo mundo...
Amar é "saber" escutar o olhar
O Amor segundo Khalil Gibran
Rilke, o poeta sem medo...
De que forma podemos dar a volta ao destino?


 
A preocupação com a felicidade mata a vida? Quem muito procura pouco encontra?
 

"Trata-se de passar da esperança da felicidade [que entorpece e faz estagnar] ao amor da vida, ainda que a vida não seja sempre amável. Porque havia de ser? Não é o valor da vida que justifica o amor que nutrimos por ela, mas, pelo contrário, o amor que nutrimos por ela que dá valor à vida. (...) Enquanto a vida aí está, enquanto há pura atenção (e já não espera), não há vazio, pois a vida é por si mesma auto-experiência de si (...). Ser feliz sem esperar quer dizer, entre outras coisas, sem esperar ser sábio. (...) A vida é mais preciosa do que a filosofia, e uma verdadeira felicidade, mesmo imperfeita como é toda a felicidade, vale mais do que uma felicidade ideal, que é apenas um mito ou uma mentira. (...) Deixemos de desejar ardentemente a felicidade. (...) A felicidade não é o fim do caminho, mas o próprio caminho. (...) A felicidade não é um sossego. (...) A felicidade não está no ser nem no ter. Está na acção, no prazer e no amor."

- in "A mais bela história da felicidade", A. Comte-Sponville, J. Delumeau, A. Farge, Texto & Grafia, 2009.

* *

"A felicidade é uma recompensa que se acerca daqueles que não a procuraram." - Alain

* *


escrito por Helena Simões da Costa 02-03-2010 15:55
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RILKE...
 

Um sentido para a existência…

«Porquê, se é possível viver o prazo da existência,

até ao seu termo, como loureiro, um pouco mais escuro do que

todos os outros tons de verde, com pequenas ondas no rebordo

da folhagem (como o sorriso de um vento) - : porquê então esta

forçosa existência humana - , e, evitando o destino,

ter saudade do destino? …

Oh! Não porque há a felicidade,

proveito antecipado de uma perda próxima.

Não por curiosidade, ou para exercitar o coração,

que também haveria no loureiro ….

Mas porque estar aqui é muito, e porque tudo

o que é daqui aparentemente precisa de nós, estas coisas efémeras, que

estranhamente nos dizem respeito.

A nós, os mais efémeros: Cada uma

uma vez, só uma vez. Uma vez, não mais. E nós também

uma vez. E nunca mais. Mas o ter sido uma vez, mesmo uma só vez:

o ter sido terreno, parece irrevogável. […]»

 

RAINER MARIA RILKE, As elegias de Duíno (Nona Elegia)

 

 


escrito por Helena Simões da Costa 08-01-2010 16:43
0 comentários

 
Mais palavras imortais de Tagore...
 


Mais palavras imortais de Tagore…

 

"Tu enches os meus pensamentos

Dia após dia;

Saúdo-te na solidão

Fora do mundo;

Tu tomaste posse

Da minha vida e da minha morte.


Como o sol ao nascer

A minha alma contempla-te

Com um único olhar.

És como o alto céu,

Eu sou como o mar infinito

Com a lua cheia no meio;

Estás sempre em paz,

Eu estou sempre inquieto,

Embora no horizonte distante

Nos encontremos sempre."

 

Rabindranath Tagore, Poesia, Assírio & Alvim, 2004.

 

 

 

 


escrito por Helena Simões da Costa 08-01-2010 15:47
0 comentários

 
As Ondas e as Nuvens...
 

O Sol ainda não nascera. Era quase impossível distinguir o céu do mar (…) Aos poucos (…) uma linha escura estendeu-se no horizonte, dividindo o céu e o mar (… ) O mar foi, aos poucos, tornando-se transparente, e as ondas ali se deixavam ficar, murmurando e brilhando, até as faixas escuras quase desaparecerem. (…) O sol definiu os contornos (…).

 

O Sol elevou-se um pouco mais. Ondas azuis, ondas verdes, todas elas se abrem num rápido leque por sobre a praia (…) deixando pequenas poças de luz aqui e ali, espalhadas na areia. (…) A luz toca em qualquer coisa verde (…) o bater das ondas provocava um ruído abafado (…).

 

O Sol já nasceu. (…) A luz quase que atravessa as finas ondas que se estendem pela praia. A rapariga que abanou a cabeça, fazendo dançar todas as jóias, os topázios, as águas-marinhas, as contas cor de água com lampejos de fogo, desnudou agora a testa e, de olhos bem abertos, traça um caminho em linha recta por sobre as ondas. (…) O vento começou a soprar. As ondas batiam com força na praia (…).

 

O Sol mostrou o rosto e olhou de frente para as ondas. Estas caíam a um ritmo regular. Caíam provocando um som semelhante ao dos cascos dos cavalos na turfa. (…) Enchiam a praia com as suas águas de um azul-metalizado, salpicadas de brilhos cor de diamante. (…).

 

O Sol atingira o ponto mais alto. Deixara de se mostrar semi-oculto e semipressentido através de insinuações subtis e brilhos. (…) luzes opalinas que faíscam no ar como se de flancos de golfinhos a saltar ... se tratasse. Era agora impossível negar o ardor intenso do sol. (…) As ondas quebravam-se, espalhando as águas com suavidade ao longo da praia. (…) As ondas apresentavam uma coloração azul profunda, excepto no que respeitava a um ponto luminoso em forma de diamante situado na crista, que se encrespava de forma semelhante à que acompanha os movimentos dos músculos dos cavalos. As ondas quebravam; recuavam e voltavam (…).

 

O Sol deixara de estar no meio do céu. (…) Era a vez de um cantinho de nuvem se incendiar, de pronto se transformando numa ilha incandescente (…) Aos poucos, todas as nuvens se deixavam apanhar pela luz, o que fazia com que as ondas se iluminassem com setas enfeitadas de penas, as quais caíam de forma desordenada no azul. (…) A jarra verde adquiria dimensões monstruosas. (…) As ondas formavam-se, curvavam-se e batiam com força na areia, fazendo voar pedras e seixos. (…) alguns peixes perdidos abanavam as barbatanas sempre que uma nova onda se aproximava. (…).

 

O Sol estava agora mais baixo. As ilhas compostas por nuvens haviam ganho em densidade e espalhavam-se frente ao Sol (…) As ondas haviam deixado de alcançar as poças situadas mais acima (…) A areia apresentava uma coloração branca semelhante à das pérolas (…) As nuvens de cabeça redonda nunca se desfaziam, mantendo antes todos os átomos que as tornavam tão redondas. (…) a luz que se escoava e filtrava de forma irregular possuía um qualquer pigmento castanho e um certo ar de abandono, como se fosse soprada (…) Durante alguns instantes, tudo estremeceu e se curvou devido à incerteza e à ambiguidade (…).

 

O Sol estava a pôr-se. (…) As ondas eram percorridas por raios vermelhos e dourados, semelhantes a flechas (…) Raios esporádicos de luz brilhavam e vagueavam um pouco por toda a parte, como se fossem sinais enviados de ilhas isoladas (…) as ondas, ao se aproximarem da praia, já não possuíam qualquer tipo de luz, caindo todas ao mesmo tempo com um baque surdo (…) Elevou-se uma brisa (…) Via-se a sombra líquida de uma nuvem, o bater da chuva, um raio solitário de sol, ou o riscar inesperado dos relâmpagos. (…) as sombras alongavam-se na praia; a escuridão aumentava. (…).

 

O Sol acabara de se pôr. Era impossível distinguir o céu e o mar. Ao rebentar, as ondas espalhavam os seus leques brancos por sobre a praia, enviavam sombras brancas para os recantos das grutas, e acabavam por recuar (…) O espelho estava tão pálido como a entrada de uma gruta oculta (…) As ondas de negrume rolavam (…) A escuridão tudo cobriu.(…).

 

As ondas quebram-se na areia.

 

 

In As Ondas, Virginia Woolf

 

Não podemos fugir, seja à repetição (aquilo que se perpetua), seja àquilo que nunca mais voltará (aquilo que se ultrapassa). Simone de Beauvoir parece que conseguiu exprimir subtilmente esta ideia através de uma telegráfica frase: "A vida está tanto em perpetuar-se como em ultrapassar-se."


escrito por Helena Simões da Costa 12-08-2009 12:50
2 comentários

 
Espelho da Filosofia
 

ARCO-ÍRIS - HELENA COSTA 2008

Foto de Helena Costa (2008)

________________________________________________________________

 

"(…) A filosofia não é uma habilidade para exibir em público, não se destina a servir de espectáculo; a filosofia não consiste em palavras, mas em acções. (…) O objectivo da filosofia consiste em dar forma e estrutura à nossa alma, em ensinar-nos um rumo na vida, em orientar os nossos actos, em apontar-nos ou pôr de lado, em sentar-se ao leme e fixar rota de quem flutua à deriva entre escolhos. Sem ela ninguém pode viver sem temor, ninguém pode viver em segurança. A toda a hora nos vemos em inúmeras situações em que carecemos de um conselho: pois é a filosofia que no-lo pode dar. (…)"

"Refugia-te em ti próprio quando puderes; dá-te com aqueles que te possam tornar melhor, convive com aqueles que tu possas tornar melhores. Há que usar de reciprocidade: enquanto se ensina aprende-se também."

________________________________________________________________

Séneca, Cartas a Lucílio


escrito por Helena Simões da Costa 16-07-2009 13:30
1 comentários

 
A falta de amor que anda pelo mundo...
 

A persistência da fome

"Em Marikina, no Leste de Manila, uma criança filipina enterra a mão na sordície de uma lixeira à beira-rio em busca de camarões. A Organização das Nações Unidas para a Agricultura e Alimentação (FAO) fixa em mil milhões o número de pessoas condenadas à fome a cada dia de uma crise espoletada pela gula."

 
A persistência da fome - em notícias.rtp.pt

2009-06-25 12:42:09

Em notícias.rtp.pt

 


escrito por Helena Simões da Costa 26-06-2009 14:45
6 comentários

 
Amar é "saber" escutar o olhar
 

 

“O AMOR, quando se revela,Gerhard Richter - Abstract 5

Não se sabe revelar.

Sabe bem olhar p’ra ela,

Mas não lhe sabe falar.

 

Quem quer dizer o que sente

Não sabe o que há-de dizer.

Fala: parece que mente…

Cala: parece esquecer…

 

Ah, mas se ela adivinhasse,

Se pudesse ouvir o olhar,

E se um olhar lhe bastasse

P’ra saber que a estão a amar!

 

Mas quem sente muito, cala;

Quem quer dizer quanto sente

Fica sem alma nem fala,

Fica só inteiramente!

 

Mas se isto puder contar-lhe,

O que não lhe ouso contar,

Já não não terei que falar-lhe

Porque lhe estou a falar…”

(1928)

Fernando Pessoa, Poesia 1918-1930, Assírio & Alvim.

 

(Imagem do pintor Gerhard Richter)


escrito por Helena Simões da Costa 25-06-2009 15:14
0 comentários

 
O Amor segundo Khalil Gibran
 

O Amor segundo Khalil Gibran

 

"Então Almitra disse:

-Fala-nos do Amor.

 

Ele levantou a cabeça

e olhou o povo;

um silêncio caiu sobre eles.

E disse com voz forte:

 

- Quando o amor vos fizer sinal, segui-o;

ainda que os seus caminhos sejam duros e escarpados.

 

E quando as suas asas vos envolverem, entregai-vos;

ainda que a espada escondida na sua plumagem vos possa ferir.

 

E quando vos falar, acreditai nele;

apesar de a sua voz

poder quebrar os vossos sonhos

como o vento norte ao sacudir os jardins.

 

Porque assim como o vosso amor vos coroa,

também deve crucificar-vos.

E sendo causa do crescimento,

deve cuidar também da poda.

 

E assim como se eleva à vossa altura

e acaricia os ramos mais tenros

que tremem ao sol,

também penetrará ate às raízes

sacudindo o seu apego a terra.

 

Como braçadas de trigo vos leva.

 

Malha-vos até ficardes nus.

 

Passa-vos pelo crivo

para vos livrar do palhiço.

 

Mói-vos até à brancura.

 

Amassa-vos até ficardes maleáveis.

Então entrega-vos ao seu fogo,

para poderdes ser

o pão sagrado no festim de Deus.

 

Tudo isto vos fará o amor,

para poderdes conhecer

os segredos do vosso coração,

e por este conhecimento

vos tornardes um bocado

do coração da Vida.

 

Mas, se no vosso medo,

buscais apenas a paz do amor,

o prazer do amor,

então mais vale cobrir a nudez

e sair da eira do amor,

a caminho do mundo sem estações,

onde podereis rir,

mas nunca todos os vossos risos,

e chorar,

mas nunca todas as vossas lágrimas.

 

O amor só dá de si mesmo,Flor da Paixão - outdoors.webshots.com

e só recebe de si mesmo.

 

O amor não possui

nem quer ser possuído.

 

Porque o amor

basta ao amor.

 

Quando amardes, não digais:

-Deus está no meu coração,

mas antes:

- Eu estou no coração de Deus.

 

E não penseis

que podeis guiar o curso do amor;

porque o amor, se vos julgar dignos,

marcará ele o vosso curso.

 

O amor não tem outro desejo

senão consumar-se.

 

Mas se amardes, e tiverdes desejos,

deverão ser estes:

 

Fundir-se e ser um regato corrente

a cantar a sua melodia à noite.

 

Conhecer a dor da excessiva ternura.

Ser ferido pela própria inteligência

do amor, e sangrar

de bom grado e alegremente.

 

Acordar de manhã com um coração alado

e agradecer outro dia de amor.

 

Descansar ao meio-dia

e meditar no êxtase do amor.

 

Voltar a casa ao crepúsculo

com gratidão;

e adormecer tendo no coração

uma prece pelo bem amado

e um canto de louvor na boca."

 

Khalil Gibran in O Profeta

 

 

Gibran Khalil Gibran (em árabe: جبران خليل جبران; em siríaco: ܓ̰ܒܪܢ ܚܠܝܠ ܓ̰ܒܪܢ; nascido em 6 de janeiro de 1883; Bicharre, Líbano10 de abril de 1931, Nova Iorque, Estados Unidos da América), também conhecido simplesmente como Khalil Gibran, foi um ensaísta, filósofo, prosador, poeta, conferencista e pintor de origem libanesa. (in Wikipédia)

 


escrito por Helena Simões da Costa 03-06-2009 12:16
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Rilke, o poeta sem medo...
 

“(…) Tantas vezes que vi na natureza um pequeno insecto metido a fazer um trabalho qualquer, a não conseguir fazê-lo, e a recomeçar incansavelmente – vê tu, dizia-me então, é porque também ele está sozinho. Como seria fácil, Deus, ajudá-lo a escalar a insignificância desse argueiro, e não é que Deus não queira – mas sabe que se o ajudasse, o insecto ficaria com medo, talvez até desistisse, pensando para consigo: não me sinto bem, como se tudo tivesse mudado, como se eu já não fosse o insecto que fui até aqui. – É essa a razão por que Deus se deixa ficar quieto, afastado do pequeno insecto; mas presumo que este, cada vez que retoma a sua ascensão, já se esqueceu da sua última decepção, do seu último falhanço, que já tudo se lhe varreu da memória, que se encontra diante de um problema inteiramente novo, curioso por saber o que se vai passar e cheio de uma alegria empreendedora. Antigamente, se não estou em erro, todas as manhãs, ou em muitas delas, também eu tinha a impressão que cada começo era o primeiro, o único; agora, e desde há muito, é exactamente o contrário que se passa. Antecipadamente, quer nas pequenas coisas que empreendo, quer nas grandes, mesmo nas que faço de bom coração (sobretudo, nestas talvez), a experiência pesa com todo o seu peso, o receio de não ser capaz – ainda mal pus o trabalho diante de mim, nem que seja uma folha branca de carta, que sobrevém logo o pressentimento que não vou ser capaz de fazer nada, e muitas vezes, não sou mesmo capaz.

Jacek Yerka - Ellison Wonderland 1993

O elemento decisivo da arte, a que durante muito tempo as pessoas chamaram a “inspiração”, não depende certamente de nós, e eu sempre admiti que, devido à nossa inconsistência, tinha de ser mesmo assim, foi coisa que nunca me inquietou, nunca recorri ao mais pequeno estimulante para suprir a sua falta – é natural ter-se paciência com o divino, porque ele tem outra medida. A inquietação a que me referia não me vem daí, tem outra origem e foi lentamente que se foi expandindo até contaminar a região de mim próprio onde se encontram as minhas verdadeiras seguranças. Um jovem autor francês bastante singular (eu gostaria de lhe enviar o livro dele – chama-se Marcel Proust –, o próprio exemplar dos meus serões com as notas que tomei a lápis) evoca uma dada angústia que desempenhou um grande papel na sua infância e o influenciou profundamente; mais tarde, no decorrer da sua vida, e quando há muito essa angústia já não estava em causa, ele pensa detectá-la, sob outras formas, é esta angústia que reaparece no amor, se isto pode ser verdade, a frase seguinte seria, no meu caso, a angústia de não poder amar que reaparece no decurso do trabalho.”

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Rainer Maria Rilke, Apaixonadamente

 

Imagem do pintor polaco surrealista Jacek Yerka, “Ellison Wonderland” – 1993

Em – http://yerka.org.ru/

 

 

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escrito por Helena Simões da Costa 27-05-2009 12:51
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De que forma podemos dar a volta ao destino?
 

Vamos dar a volta ao destino: filosofando, tocando, pintando, poetando, ensinando e aprendendo, amando,... e vamos também deixá-lo guiar-nos: preferindo, desdenhando... (o que tem de ser tem muita força!)

 

"«A nossa vida» está alojada, ancorada no instante presente. Mas – o que é a minha vida neste instante? Não é dizer o que estou a dizer; o que eu vivo neste instante não é mover os lábios; isso é mecânico, está fora da minha vida, pertence ao ser cósmico. É, pelo contrário, estar eu a pensar o que vou dizer; neste instante estou a antecipar-me, projecto-me no futuro. Mas para o dizer preciso de empregar certos meios – palavras – e isto proporciona-me o meu passado. O meu futuro, pois, faz-me descobrir o meu passado, para realizar-se. O passado é agora real porque o revivo, e quando encontro no meu passado os meios para realizar o meu futuro é quando descubro o meu presente. E tudo isto acontece num instante; em cada instante a vida dilata-se nas três dimensões do tempo real interior. O futuro repele-me para o passado, este para o presente, daqui vou outra vez para o futuro, que me atira para o passado, e este a outro presente, num eterno girar.

Estamos ancorados no presente cósmico,

 

As Catedrais do Tempo - Helena Costa 2009

 

 

que é como o solo que os nossos pés pisam, enquanto o corpo e a cabeça se estendem para o porvir. Tinha razão o cardeal Nicolau de Cusa quando na madrugada do Renascimento, dizia: Ita nunc sive praesens complicat tempus. O agora ou presente inclui todo o tempo: o já, o antes e o depois.

Vivemos no presente, no instante actual, mas não existe primariamente para nós, posto que a partir dele, como de um solo, vivemos assim o imediato futuro.

Reparem que de todos os pontos da terra o único de que não podemos aperceber-nos directamente é aquele que em cada caso temos sob os nossos pés.

Antes que vejamos o que nos rodeia somos já um feixe original de desejos, de anseios e de ilusões. Vimos ao mundo, sem dúvida, dotados de uma sistema de preferências e desdéns, mais ou menos coincidentes com o próximo, que cada qual leva dentro de si armado e pronto a disparar a favor de ou contra cada coisa, como uma bateria de simpatias e repulsas. O coração, máquina incansável de preferir e desdenhar, é o suporte da nossa personalidade.

(…) Não desejamos uma coisa por a termos visto antes, mas ao contrário: porque já no nosso fundo preferíamos aquele género de coisas, vamo-las buscando com os nossos sentidos pelo mundo. Dos ruídos que em cada instante nos chegam e materialmente poderíamos ouvir, só ouvimos, na verdade, aqueles a que damos atenção; (…) ao escutar um som que nos interessa não ouvimos energicamente todos os restantes. Todo o ver é um olhar, todo o ouvir é, ao fim e ao cabo, um escutar, todo o viver um incessante, original preferir e desdenhar. (…)

A esta extrema medida e até este ponto é o viver humano constante antecipação e pré-formação do futuro. Somos sempre muito perspicazes para aquelas coisas em que se realizam as qualidades que preferimos, e, pelo contrário, somos cegos para perceber as que restam, (…). O porvir é sempre o capitão, o Doge; presente e pretérito são sempre soldados e ajudantes-de-campo. Vivemos a avançar no nosso futuro, apoiados no presente, enquanto o passado, sempre fiel, vai ao nosso lado, um pouco triste, um pouco inválido, como ao fazer o caminho na noite, a lua, passo a passo, nos acompanha apoiando no nosso ombro a sua pálida amizade.

Numa boa ordem psicológica, pois, o decisivo não é a soma daquilo que fomos, mas do que ansiamos ser: os impulsos, o anseio, a ilusão, o desejo. A nossa vida, quer queiramos quer não, é na sua essência mesma futurismo.

(…) O presente em que se resume e condensa o passado – o passado individual e histórico – é, pois, a porção de fatalidade que intervém na nossa vida (…). Só que essa armadilha não sufoca, deixa uma margem de decisão para a vida e permite sempre que da situação imposta, do destino dêmos uma solução elegante e forjemos para nós uma vida bela. (…) [A vida] está constituída de um lado pela fatalidade, mas de outro pela necessária liberdade de decidirmos frente a ela, (…) e nada a simboliza melhor que a situação do poeta que apoia na fatalidade da rima e do ritmo a elástica liberdade do seu lirismo. Toda a arte implica a aceitação de um freio, de um destino, e como Nietzsche dizia: «O artista é o homem que dança acorrentado». A fatalidade que é o presente não é uma desgraça, mas uma delícia, é a delícia que sente o cinzel ao encontrar a resistência do mármore.

(…) a beleza da vida está precisamente não em que o destino nos seja favorável ou adverso – já que sempre é destino – , mas na gentileza com que o enfrentemos e talhemos da sua matéria fatal um figura nobre."

 

 Ortega y Gasset, O que é a Filosofia?

 


escrito por Helena Simões da Costa 18-05-2009 12:27
2 comentários

 
Rui Carrington Simões da Costa... um Professor esclarecido e clarividente
 

RUI CARRINGTON SIMÕES DA COSTA

AZOIA DE BAIXO (SANTAREM), 25/08/1894 ― BRAGA, 09/11/1964

Rui Carrington Simões da Costa

«Um Professor esclarecido e clarividente»

«Chegou tarde à educação, tirando o Curso Superior de Letras, no Porto. Frequentou a Escola Normal Superior de Coimbra, entre 1929 e 1930, tendo no âmbito da Cadeira de Didáctica da Matemática apresentado um trabalho que marcaria a sua carreira de docente e de investigador, “Método Heurístico”.

(…)

Faltava o contributo fundamental, segundo Carrington da Costa, de Jean Piaget sobre o conhecimento da criança. Sobretudo, ao nível do funcionamento e evolução do seu pensamento, retribuindo‐lhe uma “estrutura”, uma “mentalidade” e uma “moral” diferentes das do adulto. Assim, escrevia em 1943:

“Desta forma, a educação, deixa de preparar para a vida, para ser uma vida; as crianças deixam de ser adultos em miniatura – homúnculos – e a infância, como período de desabrochar físico, intelectual e moral, começa a ter um valor próprio e uma razão de existência. E se quisermos amparar e valorizar esse desenvolvimento natural, teremos de lhe devotar profundo respeito. Respeitar não e como se poderia supor, deixá‐la à sua livre expansão, mas sim estudá‐la para se poder criar um ambiente próprio que favoreça e canalize, no verdadeiro sentido, as suas potencialidades”. (…)»

 

Ver informação completa em: http://www.asa.pt/CE/PDF/338/CE_338_Figura.pdf

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escrito por Helena Simões da Costa 14-04-2009 17:48
0 comentários

 
Píndaro (poeta lírico grego - 518 a.C.) e Jacek Yerka (pintor surrealista polaco - 1952)
 

Jacek Yerda em Picasa Web Albuns

Jacek Yerka - pintor surrealista
 
 

"(...) Para Píndaro não há empates. O acontecimento fundamental da vida é a vitória. (...) O brilho esplendoroso da vitória amplia. Potencia a vida. Ao vencer-se é-se maior do que se era. É-se falado. Transcende-se o espaço que se ocupa e o tempo durante o qual se existe. Expande-se e propaga-se. (...)

(...) Só se triunfa quando se encontra o que se ama. Existir é fazer da nossa vida um amor da vida. Difícil é encontrar o amor por que viver. O amor é a possibilidade que simplesmente possibilita. Ser excelente é, deste modo, amar. É encontrar o amor da nossa vida e ser esse encontro. Ser esse encontrar. (...)

Esse ser a amar não é nunca apenas um querer por querer, uma vontade de querer, um vingar pela força da vontade. Um esforçar-se. O humano existe assim como o lance projectado a partir de si para si. Existe para ser quem era para ter sido. (...)"- António J. de Castro Caeiro (na Introdução de Píndaro, Odes Píticas)

_____________________________________________________________________________

 

[1ª Estr.]

Lira de ouro, pertença de Apolo e das musas de tranças

cor de violeta, o passo de dança, princípio do esplendor festivo,

ouve-te, e os cantores seguem os teus sinais, quando, vibradas

as cordas, dás início aos prelúdios condutores dos coros.

E extingues o raio de fogo pontiagudo que corre eternamente.

A águia dorme no ceptro de Zeus, deixando tombar para

ambos os lados as rápidas asas.

 

[1ª Ant.]

À rainha das aves, derramaste-lhe sobre a sua cabeça dobrada

uma nuvem de faces negras, o suave fechar dos olhos.

E, dormindo, ela balança as costas lânguidas, tomada pelas

tuas rajadas de vento. Até o violento Ares deixa de lado

a ponta rija das lanças e aquece o coração num profundo

sono. As tuas flechas encantam o espírito das divindades com

a perícia do filho de Leto e das musas de cintura fina e de formosos seios.

 

(…)

Píndaro, Odes Píticas – para os vencedores,

com tradução e notas de António Jorge de Castro Caeiro

Prime Books, 2006.

_____________________________________________________________________________

 



escrito por Helena Simões da Costa 08-04-2009 17:49
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Uma homenagem que faço com muito orgulho...
 

Acerca dos Professores João Carrington Simões da Costa e Rui Carrington Simões da Costa

 

 

O Professor Doutor João Carrington Simões da Costa, que foi professor da Faculdade de Ciências do Porto, também foi geólogo e naturalista português, tendo realizado e publicado importantes trabalhos científicos…

Ver restante informação em:

http://www.cm-olb.pt/files/3/documentos/2008071510145878474.pdf

e

O Professor Dr. Rui Carrington Simões da Costa, pedagogo e professor efectivo no liceu nacional de Braga, nasceu a 25 de Agosto de 1894, em Azoia de Baixo, distrito de Santarém. Realizou vários estudos sobre pedagogia, como A Escola Nova e o Pensamento Pedagógico de Ortega y Gasset (1943), e sobre psicologia escolar, em especial, acerca da testometria, como Testes: Limitações do Tempo Destinado à sua Aplicação (1941), Da Necessidade da Existência de Psicólogos Escolares no Ensino Secundário (1957), entre outros estudos e obras: De referir que a sua Obra Completa foi publicada em 2002. O investigador distinguiu-se por ser o pioneiro na investigação da psicologia médica e na aplicação de testes psicológicos e de inteligência, em Portugal. (…) ver mais em:

http://www.infopedia.pt/$rui-carrington-da-costa

 

 

Referência completa sobre o artigo relativo a Rui C. Simões da Costa:

Rui Carrington da Costa. In Infopédia [Em linha]. Porto: Porto Editora, 2003-2009. [Consult. 2009-04-07].
Disponível na www: http://www.infopedia.pt/$rui-carrington-da-costa>.

 

* *


escrito por Helena Simões da Costa 07-04-2009 17:38
0 comentários

 
Mª Helena Vieira da Silva
 

M. Helena Vieira da Silva em sound--vision.blogspot.com

"A vocação do artista é lançar luz sobre a alma humana."

– George Sand

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Foto em: http://sound--vision.blogspot.com/


escrito por Helena Simões da Costa 07-04-2009 15:48
0 comentários

 
A nossa vida presa por um fio... de nada...
 

"O presente é o fio de uma espada, o passado e o futuro um sonho entre um nada e outro nada." --

 Ramón de Campoamor

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foto em vale1clique.com

A nossa vida por um fio…de nada…

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Ramón María de las Mercedes de Campoamor y Campoosorio, conhecido como Ramón de Campoamor, poeta realista espanhol e filósofo nascido em Navia (Astúrias) a 24 de Setembro de 1817 (24.09.1817 – 11.02.1901).

(foto em vale1clique.com)

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escrito por Helena Simões da Costa 24-03-2009 16:10
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Sören Kierkegaard...
 

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 Foto: All Hallows Eve 2007 - digitalblasphemy.com

 All Hallows Eve 2007 - digitalblasphemy.com

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"A dignidade humana, em verdade, é reconhecida na natureza; quando queremos manter as aves longe das árvores, temos algo que se parece com um homem, e mesmo distante, a parecença do espantalho com um homem é o suficiente para inspirar respeito."

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 Sören Kierkegaard, L'Alternative

(Tradução do francês de Helena Costa)

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escrito por Helena Simões da Costa 03-03-2009 16:32
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O Olhar arguto de Sören Kierkegaard - é pura poesia....
 

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 By MasterOf3D in deviantart.com

 Foto by MasterOf3D em: http://www.deviantart.com/#  

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"Aconteceu que um incêndio estava a propagar-se por detrás das cenas de um teatro. O bobo chegou a avisar o público. Pensámos que aquilo fazia parte do espírito e aplaudimos; ele insistiu; nós divertimo-nos mais ainda. É assim, penso eu, que perecerá o mundo: numa alegria generalizada no espírito dos homens que acreditam numa farsa."

 Sören Kierkegaard, L'Alternative

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(Tradução do francês de Helena Costa)


escrito por Helena Simões da Costa 26-02-2009 17:47
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Porque tão longe ir....
 

CLEPSIDRA - web.educastur.princast.es 

Uns, com os olhos postos no passado,

Vêem o que não vêem; outros, fitos

Os mesmos olhos no futuro, vêem

            O que não pode ver-se.

Porque tão longe ir pôr o que está perto –

O dia real que vemos? No mesmo hausto

Em que vivemos, morreremos. Colhe

              O dia, porque és ele.

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Odes – Ricardo Reis

 


escrito por Helena Simões da Costa 20-01-2009 16:39
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Ser Pessoa na multidão... o que haverá de mais autêntico?
 

 

 

 

 Ser pessoa na multidão

 A mais alta verdade é ser-se Pessoa na multidão.


escrito por Helena Simões da Costa 16-12-2008 13:45
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A seta do tempo não pára por isso agarra o dia (Carpie Diem) e escuta tudo o que ele tem a dizer...
 

 A seta do tempo não pára por isso agarra o dia

 (Pormenor da pintura A seta do tempo não pára por isso agarra o dia, de Helena Costa)

Carpe Diem (Ode a Leucónoe)

Não procures Leucónoe, - ímpio será sabê-lo - ,
que fim a nós os dois os deuses destinaram;
não consultes sequer os números babilónicos:
melhor é aceitar! E venha o que vier!
Quer Júpiter te dê ainda muitos Invernos,
quer seja o derradeiro este que ora desfaz
nos rochedos hostis ondas do mar Tirreno,
vive com sensatez destilando o teu vinho
e, como a vida é breve, encurta a longa esp’rança.
De inveja o tempo voa enquanto nós falamos:
trata pois de colher o dia, o dia de hoje,
que nunca o de amanhã merece confiança.

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 Horácio, Odes, Livro I

 (Tradução de David Mourão-Ferreira)


escrito por Helena Simões da Costa 12-12-2008 15:55
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