Justificação

A leitura – um bem essencial

Para viver com autonomia, com plena consciência de si próprio e dos outros, para poder tomar decisões face à complexidade do mundo actual, para exercer uma cidadania activa, é indispensável dominar a leitura. Determinante no desenvolvimento cognitivo, na formação do juízo crítico, no acesso à informação, na expressão, no enriquecimento cultural e em tantos outros domínios, é encarada como uma competência básica que todos os indivíduos devem adquirir para poderem aprender, trabalhar e realizar-se no mundo contemporâneo.

A leitura - alicerce da sociedade do conhecimento

A União Europeia e organizações internacionais, como a OCDE e a UNESCO, consideram-na um alicerce da sociedade do conhecimento, indispensável ao desenvolvimento sustentado, e têm formulado recomendações, dirigidas aos governos, para que a sua promoção seja assumida como prioridade política.

Compreende-se por isso que, nas últimas décadas, tenham sido lançados múltiplos estudos destinados a avaliar em que medida é de facto uma competência a que todos os cidadãos têm acesso e se é plenamente usada na vida quotidiana. A necessidade de criar instrumentos de medida e de lhes conferir precisão levou a que se definissem novos conceitos, cujo uso rapidamente se generalizou: “literacia” e “hábitos de leitura”. Com base nestes conceitos, criaram-se instrumentos que permitiram avaliar e comparar a situação nos vários países e verificar a respectiva evolução.

Situação de Portugal nos estudos sobre literacia

Os resultados globais de estudos nacionais e internacionais realizados nas últimas duas décadas demonstram que a situação de Portugal é grave, revelando baixos níveis de literacia, significativamente inferiores à média europeia, tanto na população adulta, como entre crianças e jovens em idade escolar.

Entre os estudos mais recentes, conta-se o PISA (Programme for International Student Assessment), lançado pela OCDE em 1997 para medir a capacidade de os jovens de 15 anos usarem conhecimentos na vida real. Os resultados relativos à avaliação de níveis de leitura (literacia de leitura 1) revelam que Portugal se encontra numa situação muito desfavorável. Os primeiros elementos, publicados em 2000, colocaram 48% dos jovens portugueses nos patamares inferiores (1 ou 2) de uma escala de 5 níveis. E entre a primeira apresentação de resultados e a seguinte, em 2003, não se detectou evolução positiva. Também os resultados das provas de aferição, realizadas no final do 1.º Ciclo, tornaram evidente que a maioria das crianças faz a transição para o 2.º Ciclo sem ter adquirido competências básicas.

A situação é, sem dúvida, preocupante. No entanto, tanto a escola como as bibliotecas têm procurado intervir na promoção da leitura. E na verdade, nas últimas décadas, assumiram um papel central, desenvolvendo actividades destinadas a cultivar o interesse pelo livro e o prazer de ler.

Entre essas actividades, destaca-se o trabalho de muitos profissionais, por vezes tão discreto e reservado que permanece quase imperceptível: de professores que imaginam e aplicam por sua conta estratégias eficazes na sala de aula, de grupos de professores que planeiam em conjunto actividades, de equipas que concebem e desenvolvem bibliotecas escolares e mobilizam os colegas para colocarem o livro no centro da actividade lectiva, de bibliotecários que elaboram projectos inovadores e os dirigem aos vários sectores do seu público.

Mas, apesar destes esforços, verifica-se que os resultados são insuficientes e que, para inverter a situação, se torna urgente compreender as razões mais profundas do problema e lançar medidas adequadas e sistemáticas.

Objectivos traçados pela União Europeia (UE) apontam para uma meta a atingir até 2010: a redução do número de leitores com fracas competências para valores na ordem dos 15,5%.

Lançar um conjunto de medidas e um conjunto de estudos

O Plano Nacional de Leitura constitui uma resposta institucional aos níveis de iliteracia da população em geral e, particularmente, dos jovens. Propõe-se lançar um conjunto de medidas e um conjunto de estudos.

Numa primeira fase, as medidas a lançar baseiam-se na investigação disponível e na experiência acumulada, incluindo, naturalmente, os resultados muito positivos que têm vindo a ser alcançados por países que, há já alguns anos, desenvolvem planos estratégicos de combate à iliteracia.

Mas, sendo a investigação existente sobre a realidade portuguesa manifestamente parcelar, o Plano Nacional de Leitura inclui também um conjunto de estudos que permitirão conhecer melhor a realidade, monitorizar e avaliar a intervenção.

A investigação será também direccionada para criar instrumentos que possam servir de orientação, de apoio e de incentivo aos promotores de leitura – professores, educadores, bibliotecários, mediadores, pais, encarregados de educação.

Para responder à imperiosa necessidade de elevar os níveis de literacia e de colocar Portugal a par dos seus parceiros da União Europeia, a acção dos profissionais da Educação e da Cultura, só por si, não é suficiente. Será importante criar um ambiente social propício ao alargamento de hábitos culturais na área do livro e da leitura.

Espera-se que o debate público sobre as propostas e os efeitos do Plano Nacional de Leitura e a divulgação, através da comunicação social, dos resultados de estudos lançados no seu âmbito possam contribuir para criar esse ambiente. Mas é também desejável que surjam livremente múltiplas e variadas iniciativas, de âmbito local, regional, nacional, na esfera do sector público e do sector privado, levadas a cabo por organizações da sociedade civil, por profissionais e por voluntários.